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21/11/2017 às 12h52m

A terceira pele

As peles que envolvem as coisas. A pele da maçã, a pele de uma criança, a pele de uma mulher. O homem que trabalha pesado, sua pele transpira. A pele dos jovens na praia que queimam através dos raios do sol. A pele que morre e que se renova nos corpos de todos nós. A pele da cereja, a pele de urso, a pele de tantos animais. Os homens também possuem peles. As mulheres revestem suas peles com peles de outros bichos. Sapatos de ‘pele’ de cobra. Sapatos com tantas peles. Mas, a superfície de uma rocha seria uma pele? As superfícies são peles... assim uma criança toca a superfície-pele de uma rocha para sentir as suas ranhuras, suas entranhas, suas fissuras. 

Os olhos são envolvidos pela pele. Cada parte do nosso corpo tem como superfície algum tipo de pele. Assim, o contato se faz por uma pele contatual. Contato que se faz entre peles. O contato de uma criança com a sua mãe. A superfície-pele dos olhos da criança são tocadas pelas imagens da sua mãe. O perfume da pele do corpo da criança tem a potência de tocar a pele complexa que recebe este mesmo perfume envolvendo-o em todo o caminho, em todo trajeto sensível para que o corpo reconheça este perfume... mais uma vez!

No entanto, existe uma Terceira Pele. Esta pele nasce do encontro entre as pessoas com outras pessoas quando elas fazem um contato sensível, atento, afetivo. Esta é a experiência de estar com as pessoas, com o mundo no qual nos relacionamos e buscamos, simplesmente... sentir! A Terceira Pele nasce da propriedade fundamental para a vida de muitos seres, inclusive, nós humanos que é a experiência de sentir. Fazer contato com as emoções que nascem dos encontros com uma música. A música faz a pele arrepiar. Somos envolvidos por ela... ela possui um significado afetivo importante. A música nos comunica algo que é da ordem da lei dos afetos. 

A Terceira Pele nasce como uma pele-ambiente que nos envolve, que nos aconchega quando vivemos sensivelmente, afetivamente, o encontro com pessoas, outros animais, a natureza. Decorre daí que esta pele-mãe é uma pele de trocas. É um espaço que nos envolve quando o olhar se deixa tocar por um outro olhar... é quando um abraço acolhe um outro abraço... é quando as peles que envolvem as tantas partes de cada corpo se liga às outras peles... mesmo à distância! E a experiência de sentir esta Terceira Pele também não é predeterminada, não é preconcebida: ela, simplesmente, acontece quando as pessoas desenvolvem a sensibilidade de prestar atenção ao que acontece aqui-e-agora.

A cada momento podemos sentir o fluxo contínuo daquilo que toca a nossa existência. Podemos sentir como o mundo é tocado pela e através a nossa presença neste mesmo mundo! A Terceira Pele é filha deste contato sensível, conosco, com os outros, com as outras peles que envolvem tudo o que existe. Uma poltrona confortável possui a sua superfície: ela é envolvida por tantas variedades de peles... pele couro, pele tecido, peles de tantas qualidades! 

A humanidade dos seres ditos humanos reside, efetivamente, na experiência profunda da propriedade de sentir. É esta propriedade que faz a nossa humanidade visto que o nosso corpo é o primeiro a dizer e a comunicar como estamos aqui-e-agora. Spinoza já nos ensinou no seu livro chamado ‘Ética’ que a primeira ideia que temos é a ideia do nosso corpo. 

Terceira Pele... ser afetado pelo mundo, afetar o mundo com o seu modo tão singular de ser. A desumanidade do mundo é o efeito da esclerose da propriedade de sentir. Deixe a pele ser tocada... pelos poros do olhar... pelos caminhos dos dedos de uma mão em seu rosto... seu rosto devém paisagem... o perfume da sua pele que toca o dedo de quem te acaricia... o dedo leva consigo os vestígios perfumados colhidos do contato com os trajetos da tua pele... Contato sensível, encontro... encontro de peles, encontros de vida... Amor!

Abraço,

Paulo de Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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13/11/2017 às 11h54m

Gentes, mundos e a cidade

O olhar diante as ruas que passam. Pessoas do lado de fora… Gente de tantos lugares, tantos mundos… O olhar se perde diante das imagens que somente passam… Em cada esquina pessoas que esperam… Esperam o atravessamento de um lado ao outro para, muitas delas, tentar ganhar a vida, garantindo migalhas para sobreviver. Do outro lado, vê-se carros brilhando com seus vidros escuros que invisibilizam seus passageiros. A visibilidade é de um mundo onde se vê gentes de todos os mundos e o seu contraponto, belos carros com belas pessoas que neles parecem se esconder… de quê ?!

A cidade tem seus ruídos. E nos seus zigue-zagues cotidianos cada um traça o seu trajeto de ir e vir. Vai-se para quase todo lugar : pois tem lugares que só se entra com permissão. Volta-se para casa com o sentimento de ter um lugar de pertencimento. E pelas ruas e avenidas o senhor de idade com suas muletas espera para atravessar. Todo mundo atravessa. Ele fica à espera. No entanto, num golpe sorrateiro, vindo de um outro lugar, aparece o rapaz com seu skate. Numa freada radical pára perguntando ao senhor : « Qué que eu ajude Vô ? ». O velho senhor sinaliza que sim.

Os dois desfilam lentamente pelas marcações abaixo do semáforo como se escrevessem uma história numa outra temporalidade que são caras aos poetas. Com seus passos lentos traçam uma trajetória que pouco se vê nos dias de hoje. O velho com o jovem aliando suas potências para traçar uma outra imagem pela paisagem da cidade. De dentro dos carros os seus ocupantes observam esta paisagem como se fosse a cena de uma peça de teatro. 

Do outro lado da rua está lá o bêbado tentando atravessar. Ele observa o que ocorre e espera a chegada do jovem com o velho senhor. Num  ato de lucidez em meio à embriaguez ele pergunta a uma mãe que está com seu filho carregando suas compras do mercado : « Qué que eu ajude dona ? ». A mulher agradece e segue o seu caminho atravessando o sinal. Insatisfeito, o bêbado vê um carro com seu condutor do lado de fora tentando trocar o pneu furado. Ele segue até lá, atravessando a rua em meio aos carros que já passavam em meio ao sinal verde, quase pegando o rabo do motorista que tentava trocar o pneu.

O bêbado pergunta ao homem : « Qué que eu ajude chefe ? ». O homem todo enrolado em meio às ferramentas, ao macaco, tentando soltar os parafusos arroxados, meio que com nojo do que estava fazendo e defendendo a sua camisa social super-branca, olha para o bêbado meio descrente naquilo que vê, mas, em meio ao tumulto ele aceita. O bêbado já trabalhara em uma oficina… afinal, ele é técnico em alguma coisa… O ônibus super-lotado leva gente de todos os lugares, de todos os mundos e para justamente num ponto super-lotado de gente de todos os lugares, de todos os mundos… Os passageiros do ônibus conseguem ver a cena do bêbado técnico em alguma coisa com o condutor de classe média alta com seu carro importado.

O motorista do carro, com a sua camisa ainda branquinha quase fica embebecido pela loucura do trânsito e dos carros que quase tocavam o seu rabo quando estava tentando trocar o pneu. Num passe de mágica as mãos desgastadas do mecânico parecem ser as mãos de um cirurgião preciso com o seu bisturí, trocando o pneu em questão de minutos. O motorista não acredita que sua vida foi « salva » por um bêbado que ele não sabia ser um técnico de alguma coisa. Ele esquecera que o mundo é feito por contrapontos, por paradoxos, por tantas contradições. Os passageiros do ônibus veem o abraço que o condutor dá no técnico de alguma coisa que agora é o astro na rua para aqueles que presenciaram a cena. Do outro lado da rua a mãe com o seu filho cheio de compras espera o seu ônibus no ponto, ao lado de tantas gente de tantos lugares, de tantos mundos…

O olhar do bêbado cruza com o olhar dela. Ela sorri satisfeita com o que viu. Ele sorri e começa a dançar pela rua aproveitando o que resta de álcool em suas veias para esquecer da sua vida. Os passageiros do ônibus veem a cena querendo ver ainda a dança brincalhona do bêbado em meio aos carros que passam. A cidade é feita de tantas gentes… de tantos pontos, de tantos contrapontos, de tantos lugares… de tantos mundos… E… você faz parte de qual?

Abraços

Paulo de Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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06/11/2017 às 11h05m

As carícias do contato

O tema do contato é algo que me instiga há muito tempo. Este é um conceito que se liga às várias teorias, como a psicanálise, com Ferenczi, Balint, Alexander, Spitz, Margaret Mahler, Szondi, Rado, Rapaport et Melaine Klein. Eles desejavam pensar o contato numa dimensão pré-individual, pré-objetal, ou seja, pensando os modos de contatar numa fase inicial da vida onde as pulsões de vida não se conectassem a algum tipo de objeto. 

A Gestalt-Terapia, por sua vez, tomará o conceito de contato como um conceito maior! Iremos tratar o tema do contato começando com a sua definição: o termo contato derivado do verbo latino contingere que vem expressar quase todos os fenômenos e características motoras da pulsão de contato.

Contingere, sendo formada por tangere que significa: tocar, palpável, tocável, tangível. Contingere... tocar com... Curiosamente a palavra tango tem, numa das suas origens, a palavra tangere. Tango também vinda da língua africana, significando "lugar de encontro" onde os africanos bailavam, nos produz a aura onde os corpos se tocam, se apalpam, ganham a experiência tangível germinada pelas intensidades do contatar.

Contatar será, de um lado, tocar, roçar, tatear, atingir, pegar, alcançar, agarrar..., conforme Szondi, e tantas outras experiências dinâmicas ligadas ao encontro entre-corpos. Bela imagem conceitual a do Tango para nos inspirarmos na sensualidade do contatar. 

Mas, também tangere poderá ser tocar com os olhos, tocar a alma, tocar o intocável mundo onde habitam as partes mais escondidas de nós. Numa perspectiva sociológica dos sentidos e dos contatos, o filósofo fenomenólogo Erwin Strauss em seu livro Le Sens du Sens [2000, p. 440] nos dirá que o tato é "o sentido refinado da correção, de conduta, da conveniência, de decência no comportamento". Ele nos lembra que  o termo "tato" vem do verbo infinitivo "tocar" derivado do latim "tangere". Strauss dirá que aquilo que é manifesto e expresso pelo exercício de termos tato com os outros é a busca de uma forma socialmente aceita nos modos como fazemos contatos. Daí buscarmos ter tato em determinadas situações. Quando perdemos o tato com os outros o contato pode ser perigoso e colocar em risco a relação.  

Vemos que a experiência do contatar é, também, ter tato com as situações. Será acariciar a superfície de contato que se forma entre nós e o ambiente: uma superfície afetiva nasce em nós! Aquilo que é tão do outro, é tão meu... é tão nosso... e isso que é tão nosso são as superfícies que produzem o acorde, produzem a liga, o vínculo, a comunhão de nossos mundos. Carícias táteis onde os olhos tocam, onde somos acariciados por perfumes, onde somos penetrados pelas carícias dos sons que invadem nossa alma, contato onde somos acariciados por um olhar-superfície-de-contato movediço que move nossas emoções... 

Quais formas ganhamos deste entrelaçamento daquilo que é intangível, mas, visível e que nos toca fazendo-nos superfície de inscrição de sua força tátil afetiva? Quais formas damos aos outros quando tateamos suas superfícies contatuais? Somos "tatuados" por tantas formas táteis intangíveis que se expressam em olhares, em sons, em perfumes, em imagens produzidas por poesias que não se pegam com uma mão, mas, que se sente quando elas acariciam o coração. 

Somos tatuados pelas carícias dos "corpos sensíveis", dos "corpos afetantes-afetivos" tangíveis e intangíveis que se inscrevem numa escritura intensiva, estética e sensível as superfícies contatuais nascidas em nós. Superfícies que não nascem entre nós... mas, sim, neste espaço sem espaço do contato, espaço de comunhão, em nós superfícies contatuais nascem como os gestos intangíveis que nos tateiam através do teu e do meu olhar...

Entre em contato com as formas que você faz contato consigo, com os outros, com o mundo.

Abraço,

Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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30/10/2017 às 10h57m

A potência da novidade

Viver a novidade... viver o instante presente... Como viver o tempo de um presente que escorre diante de nós? Como viver a dimensão da vida que chamamos de tempo, mas, na dimensão infinitiva do verbo? Como viver o silêncio que podemos encontrar em nós mesmos?

Estas questões são fundamentais para pensarmos que a condição humana é afetada pela dimensão que denominamos como "tempo". As sociedades se organizaram através da dinâmica mutante e móvel da natureza. Esta se modifica através dos ciclos das estações. Mesmo a experiência de vivermos a jornada de um dia. Quantas transformações são vividas no espaço de um dia?! Os matizes do sol que se modificam no curso de um dia... as sombras de uma árvore que se desenham de formas diferentes no chão... as nuvens que vem cobrir a luminosidade do sol, modificando a paisagem... A estas modificações no curso da vida, as durações das coisas que compõem a vida chamamos por "tempo", "temporalidade". 

Viver o tempo será se debruçar na "janela do tempo". No presente que vivemos aqui-e-agora, podemos ter as imagens de situações passadas que invadem a nossa mente, fazendo emergir emoções que estavam escondidas, "dormindo" em nosso corpo. No instante seguinte, algo nos toca, talvez, uma música que faz brotar imagens de situações que ainda viveremos, ou seja, brotando imagens daquilo por vir, daquilo por viver! O futuro invade o presente instante de nossas vidas, brotando, também, emoções que estavam de um jeito e que, agora, são de outros modos. 

No presente aqui-e-agora se abre uma janela do tempo que faz nascer imagens já vividas ou ainda por viver. Assim, podemos sentir no presente algo que já passou e algo ainda que virá! Claro, não podemos viver a abertura da janela do tempo permanentemente, senão, viveremos o tempo do passado-presente ou do futuro-presente. Deixamos de viver a temporalidade do presente-presente. O grande presente que poderemos nos dar é a vivência do presente-presente! É no presente que podemos nos encontrar com a novidade!

No entanto, nos habituamos a colocar a direção da mente, da nossa consciência, nas imagens do passado ou do futuro! Desencarnamos a nossa mente daquilo que está acontecendo no aqui-e-agora de nossas vidas! Deixamos a vida passar, pois, passamos a ser espectadores de um filme que já passou ou do filme que projetamos para nós no futuro!

Viver as novidades, viver a excitação daquilo que pode ser encontrado em alguma coisa diante de nós aqui-e-agora será se abrir à temporalidade da vida se fazendo! A vida não para de se fazer! A vida não para de se criar e de recriar! Assim, a natureza se faz e se desfaz! Conectar-se com o movimento das transformações, como as águas que descem docemente as correntes de um rio, será colocar a direção do nosso campo de experiência de consciência no puro silêncio de nossa respiração. 

Deixar o fluxo da inspiração se combinar com o processo lento da expiração. Será reincorporar a mente ao corpo, ou seja, será sentir a reunião daquilo que é tão fluido [nossa mente] se unir àquilo que é extenso e que é tocado permanentemente pela vida através de nossa sensorialidade [nosso corpo].  

Abrir-se ao silêncio do presente é uma experiência a ser praticada várias vezes ao dia! Será se abrir ao fluxo da vida, será se renascer de si no instante vindouro, no instante que está a se nascer! Abrir-se ao silêncio do presente é a experiência da criança que está presente em nós, talvez, pela primeira vez! Talvez não seja a sensação da criança que já fomos um dia... mas, uma outra que nascerá enquanto uma sensação de buscar a novidade, o desconhecido, experimentando a vida, como se fosse pela primeira vez!

Aproveite o presente como se fosse pela primeira vez!

Paulo-de-Tarso

Autor: Paulo de Tarso

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23/10/2017 às 12h15m

Desejo e Liberdade

Como podemos compreender o desejo? O que é a liberdade? Para algumas teorias o desejo será compreendido como falta. Algo falta ao desejo para que ele se realize. Uma falta original condicionaria o desejo para que viva a sua incompletude.

No entanto, o desejo poderá ser visto como o processo de regeneração ou de recomposição da existência. Cada um irá se ligar aos inúmeros objetos que possa se encontrar durante a sua vida, regenerando-a, recompondo-a através destas mesmas ligações. Desta forma, o desejo não será mais visto como falta, mas, sim como o processo de recompor a vida de cada um através dos encontros.

Bem, vemos que no contemporâneo as pessoas têm ligado o desejo aos inúmeros objetos que são oferecidos pelo mercado. As pessoas conectam o seu desejo às mercadorias que são encontradas em inúmeros lugares. O desejo pode se ligar às compras num shopping quanto se ligar às verdades de uma religião, ou mesmo no caminho da política.

Em todas estas situações, e em outras também, poderemos encontrar o aprisionamento do desejo. O desejo passa a ser servil. Ele torna-se escravo. O desejo passa a ser guiado pelo desejo de um outro: e não por si mesmo. Desta forma, cada um torna-se prisioneiro de objetos, de verdades e de cargos. 

Vemos que muitos ‘soldam’ o seu desejo, ligam-no às situações-objetos, gerando uma vida condicionada à servidão. Ao invés de construírem uma vida livre, tornam-se escravos, pois, são dominados por apelos de inúmeras ordens.

Claro que podemos nos ligar aos objetos, à religião e à política. No entanto, avaliar o quanto a nossa existência é guiada, sem uma avaliação crítica destas instâncias, será viver uma vida levado pela força dos ventos, será ser levado pelo cabresto dos acontecimentos. Quem vive assim vive passivamente a vida.  Vida passiva, sem autonomia de dizer não, de se indignar com aquilo que não acreditamos e que seja prejudicial à vida em comunidade.

Vemos escravos por todos os lados. Vivendo a vida sem avaliar os caminhos que o seu desejo se deixa levar. Deixar a vida nos levar, conforme uma música nos indica, será estar sujeito a tomar o ‘caldo’ de uma grande onda, ou mesmo de um tsunami. Vemos pessoas por todos os lados vivendo a vida sem direção, ou mesmo, sem saber o que fazem da própria vida. Deixam-se levar pela grande onda que é a vida, sem avaliar no que o seu desejo movimenta seus caminhos.

Platão já dizia que o povo vivia olhando para as sombras, no mito da caverna. As pessoas olham para as sombras da sua existência não tendo, por vezes, coragem de olhar para a vida com claridade, com toda a sua verdade. Foucault, na sua última obra, nos dirá sobre o conceito de parresia. Conceito grego que significa ‘falar francamente’. Apoiados por este conceito, indagaremos: quando falamos francamente conosco? Quando olhamos para a nossa vida e perguntamos: será que vale a pena tudo isto que vivemos e fazemos para nós e para os outros? O quanto meu desejo é colocado apenas para a realização de lucro, de posição social, dentre outros desejos?

Este tema nos leva ao que passamos no Brasil atualmente. Pergunto: aqueles que ocupam os postos de 'poder' falam francamente sobre as suas intenções? Eles se ocupam com os interesses realmente públicos? Em outras palavras, qual é o real desejo destas pessoas? 

A liberdade começa quando libertamos o nosso desejo dos caminhos fáceis! Dos caminhos que ostentam aparências belíssimas com promessas de grandes realizações, mas, que no final se tornam a grande tormenta da vida de tantos!

Paulo de Tarso

Autor: Paulo de Tarso

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16/10/2017 às 11h29m

Colecionadores de histórias

Foto Wanderley Gil
Ao longo da vida vamos colecionando histórias. Colecionamos imagens, colecionamos encontros que fazem parte de nós. Nem sempre compreendemos estas coleções. Muitas vezes nos encontramos com as imagens destas coleções. Entramos em contato com imagens que fizeram sentido nas situações já vividas, já passadas. Mas, hoje estas imagens não tocam mais como antes.

Somos colecionadores de histórias. Colecionamos, também, as emoções que acompanham estas histórias. Me lembro de quando a minha mãe tocava piano todas as tardes de todos os dias. Sempre às quatro horas da tarde. O perfume do café e do bolo quentinho vindo se juntar às sonoridades do piano tocado por suas mãos. Tenho a imagem do olhar dela em contato pleno com os movimentos de seus dedos que deslizavam nas teclas. 

Ela brincava de passear nos caminhos das teclas brancas e pretas para fazer brotar melodias que alimentavam a minha alma. E o perfume do café e do bolo quentinho estava lá nos envolvendo, juntamente com as imagens do sol das quatro horas. A luminosidade refletida nas árvores da casa à frente tocava os meus olhos, invadindo o espaço onde a música, o perfume do café e do bolo se misturavam com a imagem de minha mãe. Esta imagem complexa faz parte da minha coleção de histórias.

Vamos colecionando tantas histórias importantes. No entanto, vamos deixando-as de lado, pois, nos ocupamos com tantas coisas, com tantas atividades e obrigações. As histórias que possuem uma carga afetiva singular e importante para nós começa a se evanescer em nossas memórias. A vida num presente vazio de sentido, mas, preenchido por tantas tarefas é o que pode predominar nestes casos.

Assim, vejo muitas pessoas sofrendo de um vazio existencial, de um vazio de sentido de vida. Muitas pessoas me procuram como terapeuta para tratar destas questões. Percebo como o sentido de vida, para muitas pessoas, somente foi dirigido na construção de projetos de trabalho, de realização profissional. Quando o trabalho não está mais dando prazer o sentido da vida, por sua vez, também se perde. 

Esta é uma das questões que podemos verificar. No entanto, podemos perguntar: como você se sente nas situações onde a decepção, a frustração com alguma pessoa parece desmoronar todas as crenças, tudo aquilo que você acreditava? Isso pode acontecer nas relações amorosas, de amizade, de vizinhança e, mesmo, nas relações de trabalho. Como estamos uma grande parte do tempo se relacionando com pessoas do trabalho é comum acreditarmos que somos "amigos" de alguém pelo fato de, com ele, passarmos longas jornadas, meses e anos a fio. 

A experiência mostra que nem sempre é assim. Podemos construir uma história nas nossas mentes e em nossos corações e acreditarmos que temos inúmeros "amigos". A amizade é um afeto que pode ser explicado da seguinte maneira: a amizade é um afeto nascido de um sentimento de alegria vindo da imagem de alguém que nos proporciona cuidado, atenção, respeito e presença em inúmeras situações, positivas e negativas em nossas vidas. 

Podemos colecionar histórias maravilhosas das relações que tivemos ou que ainda temos com as pessoas que fizeram ou ainda fazem parte de nossas vidas. Cuidar destas histórias é cuidar de um bem precioso. Cuidar das histórias de amizade é poder cultivar um tesouro que nós possuímos. Mesmo na relação amorosa: o amor sem cuidado não é amor. O amor com cuidado é o mais profundo ato de amor, pois, nele reside o afeto de amizade. O amor fundado numa relação de cuidado se expressa no dia-a-dia, nos encontros mais triviais, como um ato de amizade. Assim como o grande filósofo Cristo nos ensinou, ele mesmo inspirado nos epicuristas que diziam há trezentos anos antes dele: deseje para o outro aquilo que desejas para você mesmo! 

Cuide de suas histórias onde o cuidado, o respeito, a presença das pessoas em sua vida tenha sido construída pelo singelo nome de "amizade". E, então, quais são as histórias que você coleciona?! Compreender as histórias esteticamente, sensivelmente, é um dos trabalhos que realizo como terapeuta. Entre em contato: paulo.tarso.peixoto@gmail.com <mailto:paulo.tarso.peixoto@gmail.com>.

Abraços,
Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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Conhecer lugares onde podemos desfrutar novas sensações. Conhecer lugares, talvez, nunca conhecidos por nós. Esta experiência nos alimenta de novas paisagens afetivas. As imagens desta viagem ficarão guardada em nossas memórias. Assim como as imagens de viagens feitas há muito tempo atrás. Estas também ficaram guardadas em nossas memórias. Assim como as imagens de pessoas com que tivemos muitos momentos maravilhosos. 

Guardamos em nós as imagens de nossos encontros. Somos feitos de encontros. Nossos modos de ser foram, de alguma maneira, feitos daquilo que guardamos dos nossos encontros. Poderemos ir para muitos lugares. No entanto, guardamos em nós, através dos nossos encontros diários, muitas impressões daquilo que vivemos cotidianamente. Somos colecionadores de encontros!

E na experiência de colecionar encontros, passamos a nos ver e a compreender como guardamos tantas partes e formas de ser dos outros em nós! Quando menos esperamos, expressamos um modo de ser que é tão de uma outra pessoa. Numa dada situação, nosso modo de falar, as palavras que saem de nossas bocas são aquelas que ouvimos e presenciamos num encontro anterior. Vivemos a experiência dos mimetismos afetivos de forma inconsciente! Esta experiência de imitar por afeto é descrita pelo filósofo Spinoza no seu livro intitulado "Ética". 

De forma inconsciente somos afetados pelos modos de ser de uma outra pessoa e, através da experiência das ressonâncias afetivas, guardamos em nós as impressões deste encontro. A emoção que acompanha a experiência vivida com a outra pessoa faz registrar o conteúdo, o que foi dito, a maneira como foi dito, o modo de ser da outra pessoa. Toda esta experiência mimética é feita de forma inconsciente e não temos controle sobre ela. Assim, os filhos acabam por ter tanto o jeito dos seus pais. 

Os amigos passam a falar e a expressar os modos e maneiras dos seus outros amigos. Uma pessoa na internet pode, por sua vez, colecionar modos de ser de algo que ela acompanha regularmente nos sites e ambientes de relacionamento. Somos colecionadores de modos de ser!

Da mesma forma na experiência de viajar para muitos lugares, pois através dela podemos guardar tantas imagens, a experiência de se encontrar com outras pessoas [mesmo na internet] nos faz guardar tantas imagens, tantas sensações, tantas maneiras de ser. O que faz a liga, o que faz a "cola" entre as imagens de uma viagem e entre as imagens, palavras e modos de ser de uma outra pessoa para que as guardemos, são as emoções. Tudo que tiver alguma força afetiva, no sentido spinozista do termo, ou seja, tenha poder de afetação sobre nós, será guardado em nossa memória! Tudo que nos afetar com alguma carga afetiva [vitalizadora ou não] poderá ficar guardado em nós para ser ativado em outros momentos! 

Os perfumes, a imagem de um lugar, alguma situação corriqueira do dia a dia poderá ser o sinal que ativará as memórias mais guardadas em nós. Aqui começa uma outra viagem: a de conhecer como somos afetados, como somos tocados nas experiências que vivemos! Conhecer como somos afetados e somos tocados nas experiências de vida será conhecer as nossas capacidades afetivas, ou seja, o que podemos numa dada situação e aquilo que não podemos. 

Decorre daí que a experiência de conhecer a si será conhecer quais são as capacidades de se ligar às outras pessoas, de não lidar com determinadas situações e com determinados modos de ser que nos tocam, possam afetar, aumentando a vitalidade ou, mesmo, diminuindo!

Conhecer a si mesmo através das capacidades afetivas! Este é o trabalho que desenvolvo terapeuticamente com as pessoas! Entre em contato: paulo.tarso.peixoto@gmail.com <mailto:paulo.tarso.peixoto@gmail.com>.

Abraço,
Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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02/10/2017 às 10h40m

A experiência e a lanterna

A experiência é uma lanterna... Aquele que a traz consigo é que verá a vida com mais claridade... A luz é o caminho a ser construído a cada instante... Este caminho  é o caminho feito por cada experiência.... por cada situação... Assim, nos ensina a filosofia taoista onde encontramos a experiência do caminhar... Sempre no infinitivo, o verbo que nos indica a dimensão da vida sempre por se fazer... Não controlar o fluxo de vida...

Não controlar o fluxo daquilo que está diante de nós... Não controlar nada que nos aconteça será afirmar uma posição clara como a luz... Somente através da experiência podemos nos construir. A experiência é a grande rainha! Somente saberemos o que podemos numa situação passando por ela. Será em cada situação vivida que encontraremos os sentidos procurados. As ideias tornam-se mais claras e vivas quando conseguimos experienciar as situações e delas poder extrair sentidos. Como é viver somente imaginando as situações e não viver estas situações? A imaginação pode ser uma grande aliada para nos ajudar a construir caminhos criativos e possibilidades. Mas, somente através da experiência é que saberemos o que podemos ou não.

A experiência é uma lanterna! Buscar a clareza sobre nós mesmos, sobre as situações que passamos com os outros é um desafio diário. Mal acordamos temos um milhão de coisas na mente para resolver. Estas situações, muitas vezes, nos envelopam, nos envolvem de tal modo, podendo produzir emoções turbulentas e, assim, tomarmos decisões precipitadas e tempestuosas.

A experiência é uma lanterna: como aproveitar cada experiência de vida, mesmo as mais difíceis, para compreendermos que a vida não será do jeito que imaginamos sempre. Nem tudo será do jeito que idealizaremos! Como terapeuta vejo que inúmeras pessoas deprimem devido às idealizações que não foram concretizadas. Em outras palavras, as pessoas acabam se deprimindo, pois, a vida não corresponde mais àquilo que elas desejavam, pensavam, idealizavam para si. E, assim, milhões de pessoas acabam buscando o caminho dos remédios como uma única solução para os seus problemas! As medicações podem contribuir, e muito, para dar um plus a mais nas emoções, mas, elas sozinhas não irão resolver a questão que a vida impõe a cada pessoa. 

O trabalho de conhecimento de si é um outro caminho para a construção de uma vida vivida de forma coerente e vitalizada! Conhecer as emoções, conhecer como as situações da vida nos afetam, conhecer como determinadas situações aprisionam a mente, deixando-nos confusos, sem direção, sem orientação... O trabalho de conhecimento de si envolve o conhecimento sobre como afetamos os outros e sobre como nos afetamos pelas tantas situações que passamos a cada dia. Este trabalho inclui uma reflexão filosófica sobre o nosso papel na vida, sobre o nosso lugar no mundo, nosso lugar na família, nosso lugar na sociedade.

Este trabalho inclui conhecer a linguagem das emoções através do conhecimento e reconhecimento da sensibilidade do corpo. É através dele que somos afetados! Conhecer o corpo e sua linguagem será desenvolver capacidades das leituras das palavras afetivas que se expressam em sinais que as escolas não ensinam para as crianças. Os signos afetivos do corpo nos indicam o estado atual de nossa existência. Aprender a ler as emoções é um trabalho maravilhoso que pode contribuir muito para a clareza, para o entendimento sobre a vida e sobre nós mesmos. A experiência do conhecimento de si é uma poderosa lanterna que colocamos sobre nossas emoções, pensamentos, desejos, frustrações e, sobretudo, para a construção de uma vida que, realmente, faça sentido e seja vivida de forma vital!

Este é o trabalho que eu desenvolvo como terapeuta, filósofo e artista. Venha conhecer o atelier da vida! Contato: paulo.tarso.peixoto@gmail.com <mailto:paulo.tarso.peixoto@gmail.com>

Abraço,
Paulo de Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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25/09/2017 às 11h27m

As turbulências e a quietude

As turbulências da vida... a vida, por vezes, se agita como as ondas de um mar revolto... As turbulências destas ondas nos envolvem... Saber se orientar em meio às ondas para tomar direções... Como decidir quando tudo parece confuso? O medo, a ansiedade, a angústia são afetos que aparecem como crispações da alma, ela mesma, tentando controlar tudo... a febrilidade da consciência que perde o contato pleno de si... Quais direções seguir quando os olhos não conseguem ver um passo adiante e muito menos o horizonte? 

A filosofia antiga nos ensina que não devemos controlar o incontrolável... os epicuristas e os estoicos nos ensinam esse caminho... A quietude do instante... A quietude do presente... A serenidade em meio ao caos... o encontro com a quietude... a imperturbabilidade que Epicuro nomeou como a Ataraxia... afirmar que a efervescência da vida é parte da dinâmica da natureza... distanciar-se dos tumultos... se encontrar com o segredo mais profundo... de que podemos estar sempre prontos... 

Estar pronto a tudo será estar presente... em pleno contato com o que nos acontece... Estar pronto é estar ciente, estar mais uma vez presente... no deslizar do tempo... no deslizar do instante que corre diante de nós... Estar pronto é estar em contato com o que se passa em nós... em nossos afetos... nas imagens que sobrevém à mente... 

Sim, é possível encontrar a quietude em meio à agitação. No entanto, um profundo trabalho de conhecimento de si será necessário. Conhecer os nossos modos de ser será conhecer as arquiteturas afetivas que construímos no curso de nossas vidas. Conhecer quais modos de ser nos envolvem a partir de determinadas situações. Quais modos de ser surgem em situações onde as coisas não saem tão bem como nós gostaríamos que saíssem. Nestas ocasiões um modo de ser pode aparecer: o desejo de controlar e de ter certeza de tudo. Este modo de ser faz gerar a febrilidade da alma, a mente fica confusa, pois, o desejo de controle e das certezas nos leva ao obscurecimento das nossas decisões e sobre quais caminhos seguir. 

A incerteza advinda de determinadas situações pode produzir a inquietação que se transforma num grande obstáculo para o fluxo do viver. No entanto, é possível desenvolver as capacidades de estar pronto para entrar em determinadas situações. Este estar pronto não é movido pelo desejo do controle ou das certezas. Estar pronto é estar ciente de que não temos o controle da vida. As incertezas fazem parte do curso e da dinâmica da natureza. Quando nos sentimos parte da natureza passamos a sentir que somos parte de algo infinitamente maior que nossas existências. No entanto, nos agarramos às tantas certezas, nos apegamos às tantas situações em nossas vidas.

Desapegar-se, aprender a dizer adeus a quem possa produzir turbulências em nossas vidas. Aprender a dizer adeus a determinados modos de ser que estão presentes em nós e que só produzem mais obstáculos para um viver mais pleno e em contato com os afetos de prazer.

A filosofia epicurista e estoica nos indica o caminho da quietude, do exercício da serenidade em meio às turbulências. Desenvolver as capacidades de não reagir às coisas. Desenvolver as capacidades de não ser reativo, tomando decisões impensadas, movidos por nossos estados de paixões mais febris. Estar ciente de que a vida não será sempre do jeito que imaginamos. Estar ciente de que o principal obstáculo para a serenidade está em nosso orgulho, nossa vaidade, no apego em nossas verdades, em nossas mais infantis certezas, no medo de perder o que se conquistou, na angústia em controlar tudo e todos. 

Conhecer estar partes em nós, conhecer estes modos de ser que nascem em muitas ocasiões, será reconhecer que podemos, simplesmente, ser o caminho de uma vida em fluxo para nós e para os outros. Sem obstáculos para nós e sem colocar obstáculos para os outros.

Abraço,

Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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20/09/2017 às 15h24m

Metáforas

Viver a vida em espaços definidos... Educamos a nossa mente a ver a vida de determinadas maneiras... Passamos a ver, a sentir, a pensar de modo cronificado... Olhar os mesmos caminhos para se ir ao trabalho... de um lado ao outro da casa, fazer as mesmas coisas de sempre... se ocupar com aquilo que já é trivial e repetitivo... nossas emoções passam a se repetir, talvez, por uma vida toda...

Como criar outras possibilidades no nosso viver? Talvez, compreendendo o mundo das metáforas! Etimologicamente, a palavra metáfora vem do grego [mehaphora] significando "transferência". Metaphora é uma palavra derivada de metapherein que significa "trocar de lugar". Assim, meta significa "sobre" ou "além" e "pheirein" significando "levar", "transportar". Este ponto dos transportes nos interessa, pois, as metáforas possuem a potência, a capacidade de nos retirar de um ponto para nos levar a um outro! Temos aqui as pistas para construirmos estratégias de vida que nos retirem dos nossos hábitos que mais paralisam as nossas vidas, ao contrário de expandi-la com toda a exuberância que ela possui: afinal, estamos vivos e vida é dinamismo, viver é movimento, é criar novas formas de ser!

As crianças sempre nos encantam com as suas capacidades de composição de metáforas! Um dia meu filho Nicholas, com 04 anos de idade, me disse quando estávamos na praia de Imbetiba, contemplando o entardecer no verão: "papai... o sol está envelhecendo...". Olhei para ele e, sem palavras, sorri! O meu sorriso foi o gesto de que ele estava correto em suas observações.

A cada dia podemos fazer nascer tantos encontros... podemos fazer morrer, ou deixar de viver tantas maneiras de ser em nós que ainda insistem em se reproduzir em nossas vidas! A fala de Nicholas sempre me acompanhou durante todo este tempo, pois, é uma experiência vivida que me fala de como nossa sociedade descarta os conhecimentos sensíveis das pessoas, das crianças, das histórias dos idosos. Vivemos numa sociedade do descarte! 

Mas, como fui feito para compor com tudo o que tiver à mão, presto atenção às coisas mesmas, às coisas simples da vida para poder construir metáforas de vida, ideias e visões de mundo que possam contribuir na passagem dos estados cronificados de vida, dos estados de sofrimentos das pessoas para um outro mais potente, mais vitalizador e criativo em suas vidas! Este é o meu trabalho, enquanto clínico-terapeuta-filósofo-artista.

Utilizar a imaginação de forma criativa será dar corpo à construção das metáforas. Poder tocar com os olhos a paisagem. Tocar o movimento das árvores com o olhar será deslocar a posição passiva dos olhos, compreendendo que o que movimenta o olhar dirigido a alguma experiência é algum tipo de desejo. O desejo de olhar uma paisagem é um ato ativo! Assim, podemos tocar as coisas com um olhar! Esta é uma metáfora que podemos utilizar no nosso dia a dia. Tocar mesmo à distância. Criamos uma "passarela" entre a nossa posição distante com aquilo que tocamos pelo olhar. Desta experiência poderemos sentir a presença do instante. Presença da nossa existência na relação com a natureza: ser um ser de natureza, um ser que habita o mundo e, não simplesmente, ser habitado por tantas coisas, por tantas tarefas a cumprir.

Desenvolver a capacidade de sentir o mundo de outras maneiras, numa posição de receptividade daquilo que nos afeta, numa posição de atividade e de abertura ao mundo, nos leva à construção das metáforas. Elas nos indicam caminhos por onde podemos construir novos sentidos da vida, para a vida consigo, com os outros, com o mundo.
Deixe-se tocar pela vida! 

Abraço,
Paulo-de-Tarso





Autor: Paulo de Tarso

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