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Bullying: Violência entre crianças e jovens ganha destaque na mídia

Em 24/11/2009 às 10h19 - Atualizado em 24/11/2009 às 10h30


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Confira o que dizem especialistas em Macaé sobre como identificar possíveis agressores e vítimas, quais os cuidados para se evitar o problema, as atitudes corretas para pais e educadores, o desafio do ciber bullying e como denunciar agressões.

Determinados tipos de violência que ocorrem entre algumas crianças, adolescentes e jovens, como colocar apelidos, amedrontar, ofender, zoar, discriminar, isolar, tiranizar, assediar, perseguir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar, quebrar pertences, entre outros, não são novidades na trajetória de tentativas do ser humano em estabelecer relações sociais, muitas vezes, nada saudáveis. Entretanto, só recentemente o termo bullying chegou à população e ganhou destaque na mídia como um tipo de agressão que ocorre repetidamente e intencionalmente, na qual o autor ou grupo de indivíduos ridiculariza, humilha e intimida suas vítimas usando de suposta superioridade física ou psicológica.

Independente da localidade e da cultura, o assunto tem representado mais um desafio no cotidiano das pessoas, seja no ambiente acadêmico, de trabalho, na casa da família, nas forças armadas, nas prisões, ou entre tantos outros ambientes em que se faça necessária a convivência entre duas ou mais pessoas. A partir das ocorrências mais graves, a sociedade ficou em alerta e questionamentos variados e estudos focados nas discriminatórias, principalmente nas escolas, se tornaram frequentes.

De acordo com a professora Cristina Helena Bernardini, assessora administrativa de ações pedagógicas e cursos do Gabinete de Gestão Integrada Municipal de Macaé (GGIM-M), “as relações sociais hostis geradas por um comportamento inadequado podem tornar o ambiente escolar um campo de batalha. São muitos os contextos, mas é nas escolas onde o fenômeno é focalizado e abrange comportamentos agressivos relevando diferentes tipos de envolvimento em situações de violência”. Cristina Helena é mestre em Educação, desenvolve projetos alinhados ao Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e realiza estudos sobre violência escolar e bullying.

Origem do termo

A palavra bullying é de origem inglesa e não tem tradução para a língua portuguesa, é derivada do verbo to bully, em inglês, que significa usar a superioridade física para intimidar alguém. Sua origem pode estar num apelido de mau gosto, em agressões físicas, em ameaças ou em atitude de desprezo. “É uma forma de violência que ocorre nos centros educativos há muito tempo, em que os “valentões” oprimem e ameaçam suas vítimas por motivos banais, querendo impor sua autoridade”, afirmou Cristina Helena Bernardini. Segundo ela, "a atenção contemporânea ao fenômeno se deve a uma nova sensibilidade, ou seja, são novas representações sociais das relações sociais".

Entretanto, foi a partir de 1999, por meio da notícia difundida pela mídia do incidente na Columbine High School, em Littleton, um subúrbio de Boulder, Colorado, onde dois adolescentes vítimas de bullying mataram com uma arma semi-automática 12 de seus colegas e um professor, é que cresceu o interesse sobre o tema. Neste incidente, Eric Harris, 18 anos, e Dylan Klebold, 17 anos, logo após o ataque, se suicidaram. De acordo com registros por eles deixados, como ensaios, trabalhos escolares e arquivos de computador, eram impopulares e ridicularizados pelos colegas de escola, uma das razões que provocou sua reação agressiva.

Quem pratica e quem é a vítima?

Há distinção entre vítimas, agressores e testemunhas. Para Cristina Helena Bernardini, as vítimas são indivíduos pouco sociáveis, inseguros e que não possuem esperança de se integrarem ao grupo. A provocação agrava ainda mais a sua baixa autoestima, fazendo com que sofram depressão e ansiedade, passando a evitar a escola com receio de sofrerem novas agressões. O medo, a tensão e a preocupação com sua imagem podem comprometer o desenvolvimento acadêmico e levar o indivíduo a adotar medidas drásticas, como atos de vingança. O contexto do grupo de colegas também é um prenúncio importante do risco de vir a ser ou não vítima e esses indícios são ter poucos amigos de confiança e “rejeição sociométrica”, isto é, não contar com a simpatia dos colegas.

Quanto aos agressores, geralmente, são mais fortes que seus alvos e menos satisfeitos com a escola e com a família. São ainda mais propensos ao absenteísmo e à evasão escolar e têm uma tendência maior para apresentarem comportamentos de risco, como consumir tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas e brigar. Diversos estudos também indicam que pais que foram intimidadores em seus tempos de escola tendem a ter filhos que praticam intimidação. Tipicamente popular ou excessivamente impopular, o autor do bullying é impulsivo e acredita que sua agressividade é uma qualidade.

Já em relação às testemunhas, em sua maioria, Cristina Helena disse que tendem a não culpar as vítimas pela agressão, porém a maneira como reagem ao bullying permite que sejam classificadas como: auxiliares, ou seja, aqueles que participam da agressão; observadores, aqueles que só veem ou se afastam; e defensores, ou seja, aqueles que protegem a vítima ou chamam um adulto para impedir a agressão. Sobre esse último aspecto, as escolas podem incentivar e mobilizar de modo mais positivo atitudes e comportamentos de crianças não envolvidas e torná-las defensores.

Quem sofre mais com o fenômeno?

Segundo Cristina Helena, as pesquisas apontam três grandes grupos rejeitados nas escolas, entre os que têm mais probabilidade de sofrer agressões. São eles o das crianças com necessidades especiais - porque correm riscos duas a três vezes superiores de sofrerem com o bullying. Entre as possíveis razões para isso são suas características particulares, que as tornam alvo fácil, e sua dificuldade de integração social quando estão em ambientes com crianças normais, faltando-lhes a proteção fornecida pelas amizades. Outro grupo é o de crianças que não são de etnia branca, que sofrem mais xingamentos racistas que as crianças brancas da mesma idade e do mesmo gênero. Por fim, os jovens homossexuais, que podem até mesmo sofrer agressões físicas ou ser ridicularizados por colegas e professores.

Cristina Helena explicou que, mesmo que os insultos em suas formas mais inofensivas não sejam necessariamente passíveis de punição, são intoleráveis, pelo sentimento de não-respeito que induzem. “As consequências do bullying incidem no processo de socialização e aprendizagem, bem como na saúde física e emocional, especialmente das vítimas, que se isolam dos demais, carregando sentimentos negativos que comprometem a estruturação da personalidade e da auto-estima, além da incerteza de estarem em um ambiente educativo seguro”, citou. Ela ainda alertou que, se o comportamento agressivo não é desafiado na infância, há o risco de que ele se torne habitual: “Realmente, há evidência documental que indica que a prática do bullying durante a infância põe a criança em risco de comportamento criminoso e violência doméstica na idade adulta."

Psicóloga aponta
cuidados especiais

A psicóloga Gabriela Bastos, coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana, em Macaé, afirmou que é comum os teóricos apontarem dois caminhos para as vítimas do bullying: ou tornam-se eternas vítimas e se colocam sempre no lugar daquele que é humilhado e sente-se menor que o outro; ou reagem com a necessidade de estar sempre no poder, para ter a certeza de que jamais serão vítimas novamente e, ainda, correm o risco de se tornar o algoz. Por isso, a psicóloga confirmou que o fenômeno pode causar danos aos envolvidos, seja de forma direta ou indireta, e que, “sem dúvida, o bullying interfere negativamente na autoestima das vítimas. E, no que diz respeito aos agressores, geralmente tornam-se pessoas com inabilidade de se afirmarem socialmente e dificilmente atingem o que idealizaram em suas vidas”.

Com relação aos cuidados e atenções necessários para lidar com o problema, Gabriela ressaltou que o bullying deve ser tratado com muita seriedade, pois pode tornar-se um fator de alta destrutividade na vida de uma criança ou de um adolescente, que estão em pleno processo de formação da sua personalidade. A psicóloga lembrou que o bullying passa a ser um fenômeno comum em função do contexto sócio-cultural contemporâneo, no qual as crianças são influenciadas pelos valores que os ideais atuais oferecem, como, por exemplo, a contínua pressão de triunfar sempre e ser o melhor possível. Para a psicóloga, “essa idéia transforma o conteúdo do agressor em uma bomba, pois o agredido sofre com a ação em relação a ele, mas também sofre por não conseguir realizar o ideal que os outros valorizam”.

Que atitudes os pais e professores devem tomar?

Pais e professores têm pouca percepção quanto à ocorrência do bullying, em razão das vítimas não se defenderem ou não falarem do assunto e a maioria desses atos ocorrerem sem a presença de um adulto. A revelação pela criança quanto à ocorrência de maus tratos é raro por ter vergonha e medo de sofrer represália. Para a mestra em Educação Cristina Helena, este é um problema que precisa ser identificado e combatido através de ações interligadas entre pais, educadores e médicos de família. “A identificação da ocorrência do bullying e o encaminhamento ao profissional da saúde (psicólogo ou pediatra) é de suma importância, em virtude das consequências imediatas e em longo prazo das alterações patológicas”, explicou.

Manter diálogo e determinar limites também são aspectos que exigem atenção e que podem significar uma saída positiva para pais e docentes, de acordo com a professora Ivânia Riveiro, vice-presidente do Sindicato dos Professores (Sinpro) de Macaé: “Se eles não retomarem o princípio da autoridade (sem autoritarismo) a situação tende a agravar-se. Ambientes permissivos demais ou repressores podem alimentar comportamentos doentios, sendo necessário resgatar valores como respeito e compreensão”. A opinião de Ivânia vem ao encontro da afirmativa de Cristina Helena, que complementou: “Os pais agem muito com o coração e deixam a razão em segundo plano. Por isso, é preciso buscar a ajuda de especialistas, profissionais experientes, entre outros. Ninguém consegue resolver problemas dessa magnitude sozinho”.

Consequências para o docente

"No que diz respeito à escola e ao professor, esse fenômeno tem levado ao esgotamento físico e mental da categoria. É comum o professorado apresentar irritabilidade, ansiedade, perda de interesse pelo trabalho e descrédito no ser humano", afirmou Ivânia Ribeiro, do Sindicato dos Professores de Macaé. Segundo ela, o aluno é vítima do bullying e o professor de um outro fenômeno conhecido como burnout, que é um profundo quadro de estresse crônico. Entretanto, ambos precisam de tratamento, mas só cuidar da doença psicológica não é suficiente. "É melhor prevenir que remediar. Vamos atacar as causas que levam à violência, buscando resgatar valores que apontem para a dignidade humana. Ninguém pode achar que aterrorizar, ferir, é normal, porque o ser humano pode sempre ser melhor do que é", finalizou a vice-presidente.

Cyber bullying, um
 novo "fenômeno"

Em época de novas tecnologias, o bullying encontrou outros meios para ser praticado, extrapolou os limites presenciais e ganhou força através do ciberespaço, se propagando com mais facilidade pelo uso de ferramentas de comunicação, como e-mails, ligações telefônicas, mensagens enviadas pelo celular, material publicado na Internet (textos, fotos ou vídeo) e conversas via comunicadores instantâneos, como o ICQ, MSN, entre outros. As consequências do ciber bullying são as mesmas que as do bullying praticado fora do mundo cibernético. Há, também, prejuízos na socialização, pois as vítimas tendem a se isolar como forma de se proteger de novos ataques. A aprendizagem também é afetada, pois há uma queda na atenção da criança e quando o ciber bullying tem sua origem na escola, a vítima tende a faltar às aulas.

A saúde emocional da vítima é igualmente impactada, o que se manifesta por diversos sintomas, tais como: ansiedade, tristeza (podendo chegar à depressão), estresse, medo, apatia, angústia, raiva reprimida,  entre outros. Muitas das consequências nefastas do ciber bullying persistem ao longo da vida da vítima, sendo desejável a intervenção de um especialista para auxiliá-la a superar os traumas causados por esse tipo de comportamento. Isso, porque idéias depreciativas ou agressivas podem se multiplicar com rapidez e maior extensão. A imagem de uma pessoa pode ser destruída, por meio de mensagens ofensivas ou de humilhação, ameaças, perseguição, entre outras ações.

Para lidar com o problema no ambiente virtual, é imprescindível que crianças e adolescentes nunca repassem informações pessoais, como senhas, números de cartões, seu nome completo, nomes de amigos e familiares, seu endereço, telefone, nome da escola, fotos e endereço de e-mail. Também não devem acreditar em tudo o que veem ou leem. Só porque alguém diz, na Internet, que tem 15 anos de idade, isto não significa que a pessoa está contando a verdade. É aconselhável ser educado com os outros quando se está online, da mesma maneira como se é offline. Se sofrer ameaças ou tratamento rude, o correto é não responder. Não abrir uma mensagem de alguém desconhecido e, na dúvida, pedir a ajuda aos pais ou responsáveis.

Independente do meio pelo qual o bullying é cometido, o mestre em Educação Silvone Alves Assis, especialista em novas tecnologias e responsável pelos Negócios Coporativos da Posead, em Brasília, confirmou que a solução para se resolver essa questão e a do próprio processo educacional está na parceria entre família e escola: “O problema será sempre o mesmo, então é preciso focar na educação, porque quando família e comunidade participam a escola vai bem. Se elas não se engajam, a escola irá mal”. Silvone disse que para se controlar o bullying o único caminho é pela formação de valores, já que a facilidade que existe hoje para se difundir uma informação é assustadora. “Antes tudo ficava restrito a uma determinada localidade e agora vai pro mundo, se propaga velozmente, mas, da mesma forma que se espalha, também é esquecido ao ser substituído facilmente por novos acontecimentos”, concluiu. O especialista ministrou palestra sobre o desafio das novas mídias para cerca de 90 secretários municipais de Educação de todo o Estado, durante o 55º. Fórum da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) do Rio de Janeiro, realizado em Macaé, no início deste mês.

Onde denunciar?

No Brasil, não são todas os estados que possuem projetos de lei para regulamentar o bullying. A cidade de São Paulo e o Estado de Santa Catarina são os pioneiros e quem alerta também para a relevância da parceria entre pais ou responsáveis, escola e poder público é a pedagoga Anete Souto Maior, coordenadora do Conselho Tutelar 1 e 2 de Macaé. Há 10 anos atuando na área, Anete revelou um caso de omissão que a deixou chocada e que ocorreu durante a época em que ela era conselheira. “Um dia, chegou a mim um caso de uma criança de apenas seis anos de idade que estava desaparecida. A menina não havia ido buscar os irmãos menores na escola como fazia todos os dias. Submetida à violência psicológica doméstica, a criança sempre se desabafava com uma funcionária da escola onde estudava. Se a funcionária tivesse alertado a diretora ou as autoridades, através até mesmo de uma denuncia anônima, nós e os bombeiros teríamos chegado a tempo de encontrar a menina com vida, que foi morta por um vizinho perto de casa”, relatou Anete.

Casos como esse podem ter finais felizes, mas para que isso aconteça é preciso que as pessoas não tenham medo de denunciar, pois sempre tem alguém que a criança sente afinidade e que conta sobre a sua vida na escola, seja para diretoria, docentes, merendeira, secretária ou para coleguinhas, segunda a coordenadora. Anete explicou que as escolas possuem livros de ocorrência e ela aconselha que as diretoras, em casos de violência, que envolvam crianças acima de 12 anos, registrem tudo e não tenham medo. Até mesmo porque todos que tem acima dessa idade já respondem por seus atos, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “Não se omitam e levem os casos ao conselho ou à delegacia se for preciso. Ela (delegacia) e a rede de saúde (hospitais) são nossos parceiros na missão de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente”, expôs. É responsabilidade do conselho tutelar o recebimento de casos suspeitos ou confirmados de violência, entre eles negligência, discriminação, exploração e crueldade, de acordo com o ECA.

Como identificar

Baseada em suas pesquisas, Cristina Helena destacou que existem formas de identificar precocemente a ocorrência do fenômeno, a partir da observação das mudanças atípicas no comportamento da criança ou adolescente que chame a atenção. “Algumas queixas dão indícios da ocorrência do bullying  na escola, tipo: dor abdominal cíclica, cefaleia, dores de garganta, insônia, sentimento de tristeza ou infelicidade, enurese, anorexia, distúrbios escolares, depressão reativa, estresse de desordem, tornar-se agressor, ansiedade, distúrbio gástrico, dores idiopáticas, perda de auto-estima e medo de expressar emoções”, disse.

Serviço

Conselho Tutelar de Macaé
Rua Conde de Araruama, 301, Centro, Macaé(22) 2757-2406, das 8h às 18h
(22) 9879-5521, das 18h às 8h (plantão)

Delegacia Policial de Macaé - 123ª. DP
Rua da Igualdade, 896, Centro, Macaé
(22) 2772-0620 / 2772-7113 / 2772-1921

Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia)
Rua Fonseca Teles, 121 AN 2São Cristovão, Rio de Janeiro, RJ
(21) 2589-5656 / 2580-8057

Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI)
Rua Professor Clementino Fraga nº 77 - Cidade Nova (prédio da 6ª DP), Rio de Janeiro, RJ
(21) 3399-3203
drci@policiacivil.rj.gov.br / drci@pcerj.rj.gov.br

Autor: Louiseanne Parreira


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