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Redação do Enem: "Minha primeira reação foi chorar de emoção", diz estudante de Direito

Bruna Junqueira Carneiro, estudante do 10º período do curso de Direito é deficiente auditiva e usa implante coclear desde 2015

Em 21/11/2017 às 15h39


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"A abordagem do tema nos deu uma brecha para ‘botar a boca no trombone’ e tentar ser ouvidos", diz Bruna Junqueira
"Quando foi divulgado o tema da redação do ENEM 2017, minha primeira reação foi chorar de emoção". É assim que a estudante de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Bruna Junqueira Carneiro, faz referência ao tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano. Ela é deficiente auditiva, e em 2015 recebeu o primeiro implante no ouvido direito, e em janeiro deste ano no ouvido esquerdo.

A estudante conta que está na luta pela conscientização das barreiras que o surdo enfrenta na educação há alguns anos, divulgando que pequenas atitudes fariam grandes diferenças. "Minha segunda reação foi pensar "mas ninguém está preparado para falar sobre isso, só quem sente na pele", disse.

Bruna ressalta ainda que, deixando de lado a dissertação sobre o que é, de fato, fazer uma redação - que não é uma avaliação de conhecimento, e sim de desenvolvimento de raciocínio -, por mais que a grande maioria dos estudantes (e professores, profissionais de saúde, enfim, cidadãos como um todo) nunca tenha parado para pensar sobre isso, os surdos existem, sim. E eles podem ser sinalizados (usam LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais - como forma de comunicação) ou oralizados (que desenvolveram as habilidades de leitura labial e fala, geralmente combinadas com o uso de aparelhos auditivos ou implantes cocleares).

"Estamos em todos os lugares. Já passou a época em que vivíamos escondidos. Hoje, temos uma língua reconhecida por lei e uma tecnologia que avança cada vez mais para nosso benefício. Em todos os lugares, no entanto, o máximo que nós recebemos, na maioria das vezes, são olhares tortos (para nossos aparelhos) e risadinhas (da nossa língua ou do nosso sotaque). Alguns têm medo de falar conosco. Outros agem como se fôssemos incapazes de pensar, tomar decisões, trabalhar, estudar e dirigir", pontua.

A discente conta que, em Macaé, a realidade é a mesma que a de todo o país. "Desde pequena, quando ia aos médicos, era tratada como alguém absolutamente fora do normal. Chegava gripada, mas queriam mesmo era curar minha surdez - que, por sinal, é incurável. Mas, de qualquer forma, faço fonoterapia e tenho acompanhamento especializado desde o meu diagnóstico, aos quatro anos. Na escola, graças a Deus, tive o meu tripé escola-fono-família bem firme, que tomou decisões para que eu me desenvolvesse da melhor maneira possível. Conforme cresci, vivenciei outras cenas. Já aconteceu de eu ficar horas de pé, em uma repartição pública, em frente à mesa do funcionário que expediria o documento que eu precisava, porque ele se recusou a me avisar quando fosse a minha vez de ser atendida, mesmo depois de ter explicado que eu era surda e não ouviria ele me gritando", relata.

Bruna lembra ainda que, aos 18 anos, caiu na realidade de que não teria sempre alguém para ligar para os lugares e agendar atendimentos para ela. "Desde então, tenho que me deslocar a consultórios médicos, por exemplo, e agendar consultas. E, pasmem, 90% dos médicos só aceitam marcação por telefone. "Mas eu sou surda, não falo ao telefone" - eu disse, inúmeras vezes. A maior parte das reações foi de indiferença. E não para por aí. Outra vez, precisei ir ao HPM sozinha, muito doente. Diante de uma sala de espera cheia, eu só conseguia ficar mais nervosa, pois não estava conseguindo me manter de olhos abertos e não tinha ninguém com quem contar por ali. Minha atitude foi a de averiguar onde estavam sendo realizados os atendimentos de emergência e ‘invadir’ a sala do médico e falar "olha, eu percebi que, aparentemente, você está gritando pelo próximo da fila para entrar aqui, mas eu sou surda e preciso que você vá lá fora me chamar". Dei meu nome e saí. Mesmo assim, continuei nervosa, pois não sabia se aquele homem teria mesmo empatia e lembraria de me chamar na porta. Por sorte, ele chamou", relatou.

Bruna enfatiza que são, de verdade, pequenas atitudes que fazem a diferença. "Eu nunca vou esquecer o motivo que me fez escolher o médico que fez a cirurgia dos meus implantes cocleares: ele foi o primeiro, em vinte anos de minha existência que, mesmo eu estando acompanhada dos meus pais, me perguntou o que eu queria e conversou só comigo, a principal interessada. Até então, eu nunca tinha visto um médico - nem mesmo otorrinos, que são os que lidam ou deveriam lidar mais diretamente com os casos de surdez - fazer isso pra valer", relata.

Bruna vai além e questiona: "Como os outros cidadãos podem incluir os surdos na sociedade? É bem simples. Basta pensar que a surdez é uma deficiência que prejudica a nossa comunicação. Dependemos quase que exclusivamente de pistas visuais. Mesmo que não saiba LIBRAS, se posicionar de frente ao surdo, na hora de falar, deixando sua boca em evidência, faz uma diferença enorme. Dentistas que abaixam as máscaras, balconistas, caixas e atendentes que falam diretamente com o cliente, prestadores de serviços e consultórios médicos que permitem contratação e marcação de consultas por WhatsApp. Os surdos sempre se esforçam para se comunicar com os ouvintes e, assim, levar uma vida normal. Cabe aos ouvintes serem receptivos a esses esforços e tentar facilitar a nossa vida também. Seremos eternamente gratos. Se precisarmos de mais, nós vamos avisar. Mas, se ainda estiver receoso, pode perguntar", disse.

Sobre o tema "surdez" ter sido abordado no Enem, diz: "de qualquer forma, o fato de a surdez ter sido abordada em um exame de nível nacional nos deu uma brecha para ‘botar a boca no trombone’ e tentar ser ouvidos. A nossa luta não é de agora. Os surdos estão, todos os dias, lutando para viver em sociedade. Sempre comemoramos nossas conquistas. Temos um mês inteiro dedicado à conscientização da surdez, debate da identidade surda e compartilhamento das nossas lutas e vitórias. Mas basta comparecer a um desses eventos e ver quantos ouvintes se interessam e se preocupam com a temática. Então, eu gostei, sim, da abordagem. Foi um choque de realidade para muitos, além de ter coincidido com o fato de, pela primeira vez, os candidatos surdos sinalizados terem acesso à prova no formato de vídeo-questões, em que os enunciados foram passados para a língua de sinais e o aluno pôde rever as questões várias vezes, até entender e, então, poder responder, da mesma forma que fazemos leitura e releitura das questões em português", finaliza.

Autor: Juliane Reis Juliane@odebateon.com.br

Foto: Divulgação


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Tags: educação


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