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Invasão de tropa armada gera guerra por tráfico em Macaé

Intenso tiroteio foi registrado em diversos bairros de Macaé, e comércios tiveram que fechar as portas por ordem de traficantes

Em 10/01/2018 às 11h27


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Sensação de insegurança deixa moradores e comerciantes apreensivos no bairro Lagomar durante trocas de tiros e um policial foi morto na localidade. Foto Sylvio Savino



Diariamente o jornal O DEBATE tem publicado constante conflito entre facções rivais nos bairros Lagomar, Engenho da Praia, Cajueiros, Aroeira, Botafogo e Malvinas. Na manhã de terça-feira (9), o confronto no Lagomar resultou na morte do policial militar José Renê Araújo Barros, de 35 anos. O cabo do Grupamento de Ações Táticas (GAT) estava em operação na localidade da Matinha, próximo a restinga de Jurubatiba, quando tentava encurralar os criminosos que estavam no esconderijo. 
Renê foi surpreendido pelos traficantes, sendo alvejado com dois tiros na cabeça.

O comandante do 32° Batalhão de Polícia Militar (BPM), Marco Aurélio Wollmer foi até o local para tentar socorrer o agente, que veio a óbito no caminho para o hospital. O policial era natural de Itaperuna, lotado no 32º BPM de Macaé, e estava há oito anos na corporação e deixou esposa e três filhos. Esse é o quarto policial morto este ano em todo o Estado do Rio. 

Enquanto isso, a movimentação de carros e motocicletas conduzidos por bandidos da comunidade da Nova Holanda que dominaram o território por disputa de venda de drogas, deixavam os moradores ainda mais apreensivos. 
A Polícia Militar confirmou que 30 traficantes entraram pelos fundos do bairro, vindo de Cabiúnas, em direção às ruas W20, W24, W26 e W30, e efetuaram diversos tiros contra traficantes rivais. O confronto durou por mais de oito horas, onde comerciantes receberam ordem dos criminosos para fechar os estabelecimentos comerciais e toque de recolher em todas as ruas do bairro. 

Moradores afirmaram que os criminosos passaram armados e picharam muros e lojas com letras iniciais da facção criminosa. Na Avenida Doutor Sérgio Vieira de Melo, que corta toda a comunidade, a sensação era de medo, onde tiros eram disparados a todo momento. Na madrugada anterior, o confronto também foi registrado entre traficantes do bairro e facções rivais, sendo uma arma apreendida. 

O policiamento no local foi reforçado desde as primeiras horas da manhã de terça-feira (9), onde viaturas foram posicionadas nas entradas do bairro e os militares montaram um cerco atrás dos criminosos. Com a chegada da polícia houve mais tiroteio. Tudo aconteceu na parte da estrada de chão da Rua W30, a última via do bairro. Bandidos fortemente armados estavam dispostos a tomar o bairro, e boa parte dos moradores resolveram deixar as suas casas. 

Traficantes circulavam pela comunidade com toucas ninja e exibiam armas para comerciantes e moradores. A situação parecia que tinha perdido o controle, foi então que o comandante Marco Aurélio Wollmer, pediu apoio do caveirão e de um helicóptero do comando da PM geral do Rio de Janeiro. Na tarde de ontem (9), mais disparos estavam sendo efetuados do helicóptero e do veículo blindado.

A guerra entre facções criminosas pelo domínio de pontos de tráfico de drogas tem se tornado uma rotina que os moradores já não suportam mais. Uma comerciante que não pode ter a identidade divulgada, afirma que a violência no local impera há anos e a Polícia Militar perdeu as forças para combater a criminalidade. "Cada dia que passa está difícil morar aqui. Somos comandados pelo crime. Brasil, terra sem lei", desabafou a comerciante que fechava as portas do comércio durante a entrevista. 


Traficantes invadem Cajueiros

No início da tarde de ontem (9), criminosos que invadiram a comunidade do Lagomar foram divididos entre eles para tomar o ‘território’ da Favela da Linha, no bairro Cajueiros. A partir daí, os traficantes que estavam em um veículo de cor prata, foram até a comunidade e efetuaram diversos disparos de arma de fogo contra as residências e moradores que estavam no local. 
Quem passava pelas rua Vereador Manoel Braga e a Linha Vermelha foram surpreendidos pelos bandidos que trafegavam em motocicleta e automóveis. Diante de um intenso tiroteio na Favela da Linha, os criminosos resolveram, então, adentrar na comunidade e localizar os traficantes rivais, onde quatro pessoas foram baleadas dentro de uma residência. 

Na rua transversal da Vereador Manoel Braga, com a Rua Teixeira de Gouveia, no Centro da cidade, condutores foram surpreendidos com a troca de tiros da Polícia Militar com traficantes. Assustados com o confronto, motoristas trafegavam na contramão, enquanto outros davam marcha à ré para fugir de balas perdidas. 

Os feridos foram encaminhados para o Hospital Público de Macaé (HPM), onde um jovem foi identificado apenas como Jefinho, sendo submetido a uma cirurgia na tarde de ontem, assim como outros três feridos. 


Quatro pessoas foram baleadas durante confronto entre traficantes na Favela da Linha, no bairro Cajueiros - Foto Kaná Manhães 


Ônibus são incendiados por traficantes 

Cinco coletivos em diferentes bairros de Macaé foram incendiados. Segundo a Polícia Militar, os ataques foram ordenados por traficantes em retaliação à troca de tiros na comunidade da Favela da Linha. 

O primeiro fato aconteceu na Avenida Amaral Peixoto, na RJ-106, próximo ao Batalhão de Macaé, quando dois ônibus foram incendiados por criminosos da comunidade Fronteira, segundo a Polícia Militar. Os suspeitos determinaram que os passageiros descessem dos coletivos, e em seguida, atearam fogo em galão de gasolina nos dois ônibus. 

Do Centro da cidade era possível ver chamas de cor escura saindo dos coletivos. O trânsito ficou em meia pista, provocando congestionamento do Mercado de Peixes até as imediações da UPA da Barra. 
O terceiro coletivo incendiado foi registrado na Linha Vermelha, próximo a Favela da Linha, entre os bairros Visconde de Araújo e Cajueiros. Criminosos determinaram que os passageiros deixassem o coletivo, e em seguida, atearam fogo. 

O quarto crime aconteceu na Rua Alcides Mourão, próximo ao Ciep da Aroeira. Bandidos que trafegavam na principal rua do bairro em duas motocicletas pararam o coletivo que seguia para o Terminal Central, e atearam fogo no ônibus. 
Quem passava pelas Rua Dr. Télio Barreto, Alcides Mourão e Gastão Henrique Schuller, presenciava as ações criminosas e movimentação de traficantes na região, que deixaram moradores e comerciantes assustados com a ousadia. 

O quinto coletivo foi incendiado no fim da tarde, por volta das 16h30min, na Linha Azul, próximo a comunidade da Malvinas. Os passageiros foram obrigados a sair do ônibus e presenciar a ação criminosa. 


Cinco ônibus foram incendiados na tarde de terça-feira(9), em diferentes bairros de Macaé. Foto Wanderley Gil 


Com medo de traficantes, lojistas do Centro fecham portas 

Diversos estabelecimentos comerciais do Centro de Macaé fecharam as portas no início da tarde de terça-feira(9), já que os bairros e comunidades estavam em confronto com traficantes rivais e policiais militares. 

Com medo, os comerciantes da área central fecharam as portas e o expediente foi encerrado mais cedo, devido a especulações que foram publicadas nas redes sociais que as lojas haviam sido saqueadas e pedestres foram vítimas de arrastão no Calçadão da Avenida Rui Barbosa. 

Segundo a Polícia Militar, não houve registro de saque nas lojas e nem arrastão. Funcionários que deixaram o expediente mais cedo, também enfrentaram problemas para conseguir ônibus de volta para a casa, já que o Terminal Central ficou fechado na tarde de ontem (9). 

"É a primeira vez que vejo Macaé desse jeito. Uma insegurança total, pessoas correndo e até mesmo chorando ao presenciar bandidos exibindo armas em motos e carros. Cadê a segurança?", disse uma comerciária. 

Somente as agências bancárias funcionaram normalmente, porém a segurança foi reforçada, tanto do lado de dentro, quanto nos caixas eletrônicos. A Polícia Militar reforçou o policiamento na localidade, mas comerciantes ficaram preocupados de permanecer com portas abertas, mesmo com a presença dos policiais. 


Mesmo com a presença da PM no Calçadão, comerciantes fecharam portas no início da tarde de ontem (9). Foto Kaná Manhães



Macaé refém do tráfico de drogas

 O tráfico de drogas em Macaé tem o perfil mais violento do interior do Estado do Rio de Janeiro, tanto que a cidade seria a primeira fora da capital a ter uma UPP para apaziguar as comunidades nas Malvinas, Nova Holanda e no Lagomar. Esse perfil é resultado de ações de um traficante macaense, que tinha o apelido de Rupinol. Ele começou a controlar o tráfico de drogas na cidade nos anos 90.

Seu sonho era entrar para a cúpula do tráfico na cidade do Rio de Janeiro, mas precisava de uma grande proeza para mostrar prestígio, coragem e ter dinheiro como cartões de visitas. Então Ropinol explodiu no final de um horário útil bancário uma rede de transmissão de energia usando dinamite.

Com a explosão a cidade viveu um apagão e dois bancos foram assaltados. Com esse dinheiro e essa proeza, Rupinol carimbou seu passaporte para o alto escalão do tráfico de drogas no Rio, dividindo poder, inclusive, com Fernandinho Beira-Mar.

O traficante macaense que acabou montando refinarias de cocaína em vários pontos do município de Conceição de Macabu, vizinho a Macaé, passou a dominar o tráfico no Morro de São Carlos, no Rio, onde acabou morrendo em um confronto com a polícia no início de 2000.

Com sua morte o comando de sua facção passou a administrar o tráfico em Macaé com extrema violência. É uma cidade, indiscutivelmente refém da violência dos traficantes, onde a população presencia a desordem que agora tende a se agravar.



Tráfico cresce no município, população teme desordens e falta de segurança pública. Foto Wanderley Gil


Autor: O DEBATE

Foto: Sylvio Savino, Kaná Manhães e Wanderley Gil


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Tags: polícia


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